Percurso de leitura
Saí do condomínio, o ponto 1, com "Fogo nas Encruzilhadas" debaixo do braço e fui até a banca comprar varejo. Na entrada do bloco vi ume adolescente com adesivos de arco-íris de cada lado da bochecha, com uniforme da escola e automaticamente senti uma alegria por ver aquele rostinho enfeitado desse jeito.
Na banca, o cara já estava fechando mas deu tempo de perguntar do cigarro. Ele disse que tinha acabado mas me apontou um lugar na outra direção e exclamou depois que eu virei: "é só hoje!" e rimos, eu disse que voltava. Esse foi o ponto 2.
No ponto 3, eu pedi o varejo e ele disse que só tinha Carlton e que era 1,50, exatamente o dinheiro que eu tinha no bolso. 4 de 25 e umas de 10 e 5 formando 50 centavos. Quase levei 1, mas quis levar mais 50 de precaução e coloquei em bolso separado. Comprei o cigarro e acendi com meu isqueiro atravessando a rua. Os 2 caras que estavam no ponto 3, o bar/lanchonete, ficaram me olhando.
Segui a rua para o ponto 4, a encruza. Só hoje reparei que seguindo a rua do bar/lanchonete existe uma encruza enorme, maior que a outra que eu pretendia parar e nem sequer cheguei a ir lá. Parei no ponto 4, debaixo de uma árvore com várias oferendas embaixo e quando sentei o cigarro já tinha acabado. Comecei a ler andando.
Quando sentei li da página 28 até a página 36 e se eu não fosse macumbeira, talvez eu acreditasse em coincidência, como diz uma personagem do livro. Como eu sou, acredito que ler esse livro numa encruzilhada fumando um cigarro em plena segunda-feira foi uma baita de uma mandinga! E não parando por aí, no livro a primeira aparição de Exu acontece. Página 30. Exatamente com essa fala: "um cigarro, malandro?". Fui de guia, com a guia dele, do Malandro.
Em uma casa do lado, em obras, um pastor berrava em alguma gravação de culto ou rádio e eu só consegui entender "você está passando por uma provação!" e eu só fiz concordar, enquanto tapava um dos ouvidos pra me concentrar na leitura. Pessoas passaram por mim, muitas crianças saindo da escola e eu levantei quando tinha finalizado um trecho do livro dando a volta na árvore e seguindo o mesmo caminho.
Virando a segunda esquina vi os rapazes do bar/lanchonete me espiando por trás do toldo arriado. Segui pensando, reparando, batucando o livro. Entrei no condomínio e vi um par de sapato jogado e a pessoa com as bochechas de arco-íris no mesmo lugar esperando. Não sei quando tempo levou esse percurso, fui sem relógio ou celular.
Tentei fazer um esboço numerando os pontos. Ficou meio cagado, mas é uma tentativa de mapear. Vai me fazer bem continuar...
