Afrocerimônias: a negritude e o pós dramático com Rodrigo de Odé
O curso é uma proposta de imersão em ações criativas de comunicação, conhecimento e transformação, a partir de uma articulação entre a capoeira angola, a filosofia africana, o cinema e o teatro pós-dramático, como forma de exploração da presença, da linguagem, da energia e do corpo negro em cena.
Foi a primeira ação da Escola Preta de Artes gerida pela Confraria do Impossível no Terreiro Contemporâneo. Uma oficina/abre-alas e um consolo por eu descobrir depois que não conseguiria vaga em nenhuma das turmas que tentei vaga. Uma pena, mas semestre que vem tento de novo! Um projeto de encher os olhos, sabe?
Rodrigo inicia em roda trazendo para nós alguns itans. O mais marcante foi o da criação de Exu Elegbara, aquele que é capaz de parir a mãe pela boca, que cria a si mesmo. Ele publicou um livro do texto de uma peça que está em processo e tem data de estreia pra esse ano chamada Elegbara Beat. Daí a condução já começa, claro, pelo fundamento. Rodrigo é capoeira angola e é Ogã, de Oxóssi. Nos conduz pela floresta com cautela e faz a gente seguir com a mesma cautela suas pegadas.
Os movimentos de capoeira angola eram de defesa, de luta, mas a gente também via dança, via baculejo, via as chamadas manifestações populares. Me vi de muitas formas e gingar, sem dúvida, foi o ponto chave do aprendizado daquela tarde. Aprendi que gingar é uma postura de defesa, uma defesa sinuosa, mas que não está disposta a cair mas se for preciso, se curva. Em algum momento ele trouxe a movimentação do Barravento, as pernas pro lado e o tronco pro outro, o corpo em desequilíbrio e similaridade com a incorporação, por isso o nome do movimento.
Fiquei presa no Barravento, no movimento. Eu já tinha ouvido a palavra, mas associada a um toque, não a uma movimentação. Só que essas coisas não são inseparáveis nos ensinamentos afro diaspóricos, né? Movimento é música e música é movimento. Tudo é corpo. Lembrei do "entrar saindo e sair entrando" que Rodrigo falou em um dado momento, falando sobre a postura do ator.
Outra coisa que me chamou atenção, já perto do final da oficina foi uma sequencia de exercícios começando pela respiração do Tai Chi, onde em um movimento simples de subir e descer os braços, testamos nossos limites sem pausas. A recuperação se dá no percurso. Daí olhamos para nossas mãos e "desempoeiramos" elas, depois viramos uma palma pra outra pra testar o magnetismo gerador nesse contato. Eu tremi. Depois então demos vida a esse contato, falando com ele, em voz bem baixa mas literalmente falando. O que criei ali me pareceu com a bola de fogo das aulas da Carol Pedalino, que saia de nós, percorria o espaço com a gente e voltava para dentro de nós. Um sutil e que busca o profundo, sem interpretação.
Também cantamos! Cantamos cantigas lindas, com entonações variadas, em roda e com Rodrigo nos acompanhando na voz e no pandeiro. Não lembro das letras mais... mas lembro que a última falava sobre Malunguinho. Foi bonito entoar esses cantos junto! Voltei ao início, quando Rodrigo nos perguntou nosso nome e pediu uma palavra. A minha foi "liberação" e não tem, pra mim, forma de liberação mais profunda que o canto. E eu cantei.
Um querido indicou o livro A arte cavalheiresca do arqueiro Zen
Genilson estava lá e me lembrou de seu trabalho:
https://www.scielo.br/j/rbep/a/9LyFVXtvqxqRHvGrbH549Qd/?lang=pt
Foi um dia de bons encontros, especialmente comigo mesma.